Alerta: sua igreja pode ser investigada…

14 maio, 2008

A autonomia de igrejas e ministérios cristãos para gerir seus próprios recursos financeiros tem sido cada vez mais questionada. Autoridades públicas, imprensa, Justiça e outros setores da sociedade volta e meia dirigem sua atenção para organizações evangélicas que se destacam não apenas por sua pregação, mas pelo patrimônio que ostentam ou devido ao estilo de vida de seus líderes. Embora em muitos casos tais episódios não passem de mera especulação, por vezes a coisa ganha ares de escândalo – ou de caça às bruxas, dependendo do ponto de vista. Agora mesmo, nos Estados Unidos, país com ampla liberdade religiosa e grande participação protestante na política e na vida civil, seis importantes grupos de orientação pentecostal estão na mira do Comitê Financeiro do Senado. Trata-se de um poderoso órgão com prerrogativas de promover investigações, cobrar responsabilidades e propor mudanças legislativas.
O mais recente lance neste tabuleiro que envolve poder, dinheiro e fé foi dado pelo senador republicano Chuck Grassley, de Iowa. Em novembro passado, o parlamentar, que é crente batista, encaminhou aos ministérios um vasto pedido de explicações por escrito. O gabinete de Grassley – combativo membro do Comitê que já inquiriu entidades respeitadíssimas como a Cruz Vermelha e o Instituto Smithsoniano – tem recebido informações dando conta de supostas irregularidades no comando de instituições de grande influência. Algumas das questões levantadas são bastante inusitadas, como o pedido de informações acerca da compra, por parte do Ministério Joyce Meyer, um simples móvel que teria custado US$ 23 mil. Outras envolvem vultosas movimentações. Caso da solicitação ao pastor Benny Hinn, chefe da Healing Center Church World, provas da origem dos US$ 3 milhões gastos na compra de uma mansão em Dana Point, na Califórnia.
Além das duas entidades, estão na mira do senador o Ministério Paula White, liderado por Randy e Paula White; Ministério Kenneth Copeland, sediado em Newark, no Texas, e dirigido por Kenneth e Gloria Copeland; Igreja Batista New Birth e seu bispo Eddie Long; e Igreja Internacional World Changers, comandada pelo casal Creflo e Taffi Dollar, de College Park (Maryland). Em comum, o fato de que todos movimentam fortunas e são potências midiáticas, com programas de TV de grande audiência nos EUA e em outros países. Envolvidas em um sem-número de atividades – como comercialização de livros, CDs, DVDs e outros produtos, promoção de eventos, negócios imobiliários e empreendimentos como gravadoras e editoras, além de projetos sociais e filantrópicos. Isso sem falar nos recursos arrecadados na forma de dízimos e ofertas doados pelos fiéis. Algumas igrejas ligadas a esses ministérios têm mais de 30 mil membros.

Denúncias – Os formulários elaborados pela equipe do senador são, como diria aquele nada saudoso ex-presidente brasileiro, “nitroglicerina pura”. O parlamentar quer checar notas fiscais, relatórios das reuniões de diretorias, provas contábeis feitas por empresas de auditoria, recibos de viagens e hospedagens, balancetes e outros documentos. O senador chega a pedir as faturas dos cartões de crédito dos líderes das seis megaigrejas. A iniciativa de cobrar satisfações teria surgido a partir do crescimento de denúncias, sobretudo na mídia, acerca de abusos financeiros cometidos em nome de Deus contra a boa fé alheia. Como pano de fundo da investigação, a movimentação de milhões de dólares isentos de impostos – e que poderiam seguir descaminhos longe dos olhos dos mantenedores. Há suspeitas sobre salários astronômicos pagos a diretores, desvio de verbas, uso pessoal de bens pertencentes aos ministérios e transferências ilegais de valores, entre outras transgressões. Na prática, a investigação equivale a uma abertura de sigilo contábil.
Nos Estados Unidos, assim como ocorre no Brasil, igrejas e organizações religiosas gozam de isenções tributárias. Desde que atendam a alguns requisitos de ordem burocrática, elas são desobrigadas, por exemplo, de entregar o formulário 990/IRS, um dos principais instrumentos de arrecadação do Imposto de Renda americano. Além disso, os americanos que fazem doações a igrejas, sinagogas, mesquitas e quaisquer outras instituições religiosas e sem fins lucrativos podem deduzir pelo menos parte disto em suas declarações de renda. Motivo mais do que suficiente, diga-se de passagem, para que as autoridades do país se preocupem com a destinação desse dinheiro. Atuamente, se quiser a dedução do fisco – e quem não vai querer? – o doador precisa informar à Receita Federal, de modo bem detalhado, quanto deu para sua igreja ou para a caridade.
Embora ainda esteja longe de chegar a algum resultado conclusivo – até agora, apenas duas das entidades contatadas enviaram respostas ao Comitê –, a investigação do senador Grassley pode ensejar um maior controle fiscal sobre as igrejas. Kenneth Behr, presidente do Conselho Evangélico de Contabilidade e Finanças, uma agência independente que atua junto aos ministérios, expressou sua preocupação. “Acho que o senador está comprando uma briga”, declarou, em entrevista à Christianity Today. Behr diz que nunca viu nada tão extenso em investigações do gênero. “Se eles não responderem, suspeito que Grassley pedirá ajuda à Receita Federal”, admite. “Uma auditoria da Receita não é nada agradável”, disse um ex-executivo da Ford Motor. “Não desejo isto ao meu pior inimigo”.
“Organizações religiosas estão sujeitas a todo tipo de norma do governo”, lembra Ayesha N. Khan, diretora legal da Americans United for separation of Church and State (“União Americana pela separação da Igreja e Estado”). “Se as igrejas se calarem ou não responderem completamente, Grassley pode insistir em uma explicação perante o Comitê Financeiro do Senado”, avalia, por sua vez, Olé Anthony, fundador da Trinity Foundation, organização evangelística com sede em Dallas. Na sua opinião, já era hora de as organizações religiosas americanas passarem por um choque de legalidade. “Alguns cometem graves fraudes”, reclama, “e isso só está piorando conforme o tempo passa”.

“Estranho” e “inusitado” – Já entre os ministérios investigados, o desconforto é evidente. O fato tem elevado o nível de desconfiança do público em relação à atuação das organizações eclesiásticas. Embora assegure que a entidade que preside é um “livro aberto”, o pregador e conferencista Creflo Dollar alertou que a investigação de Grassley possivelmente afetará “a privacidade de cada comunidade e igreja nos EUA” e pediu respeito às igrejas que crêem no “Evangelho da prosperidade” . Depois do pedido de investigação do Senado, ele aceitou o convite para dar explicações no programa de entrevistas de Larry King, e permitiu que a equipe de TV mostrasse sua mansão e seus automóveis de luxo. Diante de tanta opulência, Creflo Dollar declarou que o patrimônio é “sinal de bênção divina”.
Por sua vez, os responsáveis pelo Ministério Paula White declararam à imprensa que consideraram o pedido do senador “inusitado”. No entender de Randy e Paula White, que recentemente anunciaram seu divórcio, a solicitação de relatórios sobre áreas que não possuem relação com a igreja é “estranha”. Ao mesmo tempo, eles questionam por que o parlamentar republicano, e não a Receita Federal, desencadeou o processo. Tal inquietação encontra eco em outros setores. “É uma causa alarmante que um comitê do Senado queira supervisionar diretamente o exercício financeiro de ministérios religiosos”, opina Richard Neuhaus, editor do jornal conservador First Things.
Um dos grupos questionados, o Ministério Joyce Meyer, respondeu ao senador Grassley antes do prazo pedido – 6 de dezembro – e veio a público reiterar o que chama de “comprometimento com a excelência e a integridade”. A entidade lembra que, recentemente, obteve certidão da Receita Federal garantindo que está dentro dos padrões legais e que continua preenchendo os requisitos exigidos para isenção do Imposto de Renda. “Nossos relatórios financeiros são submetidos a auditorias independentes e estão à disposição de qualquer interessado pela internet”, diz comunicado oficial, assinado por Delanie Trusty, chefe do Departamento Financeiro da organização.
Sobre as ilações acerca do estilo de vida de Joyce e de seu marido, Dave, o documento diz: “Aqueles familiarizados com Joyce Meyer, que assistem a seu programa televisivo, lêem seus livros e ouvem suas mensagens de esperança e força, reconhecem pessoalmente que Joyce e Dave são profundamente compromissados com um alto padrão de mordomia tanto em sua vida pessoal quanto nas operações diárias do ministério”. Finalmente, o grupo se diz confiante de que as informações prestadas farão com que “a verdade seja revelada”: “Acima e além de qualquer obrigação legal, temos profundo compromisso com nossos parceiros de ministério e amigos”, frisa a nota. Em 2005, a Wall Watchers (Atalaias), uma organização evangélica que declara ter como missão fazer auditorias, organizar as finanças e fomentar a transparência de igrejas e ministérios, já tinha pedido investigação da Receita Federal nas contas de Joyce Meyer. Na ocasião, a conferencista disse que não se preocupava em ser investigada.
“Se sua casa está em ordem, você não tem nada a temer e muito a ganhar neste processo”, recita, categórico, Joel Hunter, pastor sênior da Igreja Northland, próxima a Orlando, na Flórida, com 12 mil membros. Ele é membro do comitê executivo da Associação Nacional de Evangélicos, órgão que tem sido cauteloso diante da situação. Para muitos, o que está em jogo, numa análise mais ampla, é um vespeiro chamado liberdade religiosa e o antigo princípio, basilar na democracia, da separação entre a Igreja e o Estado. Mas o jornalista J. Lee Grady, editor de Charisma, publicação conceituada no meio pentecostal americano, prefere ver a mão de Deus por trás de tudo: “Isso acontece porque o povo não está pedindo de seus líderes prestação de contas do dinheiro arrecadado. Creio que o Senhor está apontando seu dedo para a Igreja, exigindo que andemos por suas veredas”.

(Tradução: Karen Bomilcar. Adaptação e redação: Carlos Fernandes. Colaborou Valter Gonçalves Jr) Texto extraído do site Cristianismo Hoje.

PS: Se a moda pega, tem muita gente aqui no Brasil que vai precisar rebolar, e muito…

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4 Respostas to “Alerta: sua igreja pode ser investigada…”

  1. gilmar nunes moreira Says:

    gostei da reportagem,,, e gostaria mais de clareza no assunto descrito……..

  2. luna Says:

    Caro gilmar, todos nós queremos, não só clareza no assunto, mas clareza nas finanças das Megaigrejas corporativas apostólicas. Prometo se souber de mais alguma coisa, posto aqui no blog…

  3. jose ribamar Says:

    TOMARA QUE ESSA MODA CHEGUE AO BRASIL.O MALACHEIA,O FADI E O MARCOS GREGORIO JA DEVEM ESTAR COM INSONIA.BIBLIA DA PROSPERIDADE FINANCEIRA.KKKKKKKKKK


  4. É, muitos tremeriam na base por aqui… Grandes e infelizmente até ‘pequenos’.

    Transparência é credibilidade.


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