Bono Vox: salmos, blues, Elvis e Davi… (Já disse que sou fã?)

14 maio, 2008

Fantástico texto escrito por Bono Vox, vocalista do U2, extraído direto do blog RD – B Side.

“Explicar uma crença sempre é difícil. Como você explica existir amor e lógica no íntimo do universo quando o mundo está tão em dívida com isso? O livre-arbítrio tem nos atormentado? Imagina então aos personagens que habitam o grande livro conhecido como Bíblia, que ouvem a voz de Deus? Explicar fé é impossível: visão (objetivo) acima de visibilidade; instinto acima de intelecto. Um compositor toca um acorde com a fé de que o próximo acorde vai soar na sua cabeça.

Um dos escritores de Salmos foi um músico, um harpista cujos talentos foram solicitados no palácio como a única medicina que podia calar os demônios do temperamental e inseguro Rei Saul de Israel. É uma cultura que ainda prevalece: Marilyn [Monroe] cantou para Kennedy, as Spice Girls para o Príncipe Charles.

Quando eu tinha 12 anos, era fã de Davi. Ele parecia familiar, como um pop star poderia parecer familiar. As palavras de Salmos eram tão poéticas quanto religiosas e ele era uma estrela. Antes que Davi pudesse cumprir a profecia e se tornar o Rei de Israel, ele teve que tomar uma bela surra. Ele esteve no exílio e acabou numa caverna em alguma cidade fronteiriça enfrentando o colapso de seu ego e o abandono de Deus. Mas é aí onde a novela se torna interessante. É onde diz-se que Davi compôs seu primeiro salmo — um blues. Este é o motivo por quê vários salmos parecem o blues para mim. O homem gritando com Deus: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? Por que se acha tão longe de me ajudar?” (Salmo 22)

Eu ouço ecos desse barulho santo quando um cantor de blues, não-santo, Robert Johnson grita: “Há um cão do inferno no meu caminho” ou Van Morrison canta “Algumas vezes eu me sinto como uma criança orfã”. Texas Alexander imita os Salmos em Justice Blues: “Eu clamei, Senhor meu Pai. Reino do Senhor venha. Traga de volta minha mulher, então Tua vontade será feita”. Engraçado, algumas vezes são blasfemadores… o blues foi uma música marginal mas, pela sua grande oposição, louvou o assunto principal de seu primo perfeito, o gospel.

Abandono e deslocamento formam o conjunto dos meus salmos favoritos. O livro pode ser uma fonte de música gospel, mas para mim o que o salmista realmente revela é desespero e a natureza de seu relacionamento especial com Deus. Honestamente, até do ponto de vista da raiva: “Até quando, Senhor? Esconder-te-ás para sempre?” (Salmos 89:46) ou “Me responda quando eu clamar” (Salmo 5).

Salmos e hinos foram meus primeiros gostos de inspiração musical. Eu gostava das palavras, mas eu não tinha certeza das melodias… com excessão do Salmo 23, “O Senhor é meu pastor…” Eu as lembro mais como zunidas e entoadas do que cantadas. Mas elas me prepararam para a sinceridade de John Lennon, a linguagem barroca de Bob Dylan e Leonard Cohen, a goela aberta de Al Green e Stevie Wonder. Quando eu ouço esses cantores, eu estou reconectado a uma parte de mim que eu não posso explicar — minha alma, eu acho.

Palavras e música fizeram por mim o que sólidos, até rigorosos, argumentos religiosos nunca poderiam fazer — eles me apresentaram a Deus, não a crença em Deus, mas uma experiência sensorial de Deus. Mais do que artes, literatura, garotas, encontros, a maneira do meu espírito se expressar era uma combinação de palavras e música. Como resultado, o livro de Salmos sempre pareceu convidativo para mim e me conduziram as poesias de Eclesiastes, aos Cantares de Salomão, ao livro de João… Minha religião não poderia ser ficção, mas tinha que transcender aos fatos. Poderia ser místico, mas não mítico.

Minha mãe era Protestante, meu pai Católico. Em qualquer lugar, exceto na Irlanda, isso seria irrelevante. Os Prods [Protestantes] daquela época tinham as melhores melodias e os católicos tinham os melhores equipamentos de palco. Meu colega Gavin Friday costumava dizer: “Os Católicos Romanos são os Glamrock da religião” com suas velas e cores psicodélicas — azul, vermelho e vinho –, incensários e o toque do pequeno sino. Os Prods [Protestantes] eram os melhores com os grandes sinos, eles podiam se dar ao luxo de usá-los. Na Irlanda, riqueza e Protestantismo andavam juntos. Ter qualquer um dos dois significava ter colaborado com o inimigo, que é a Inglaterra. Isso não ocupava nossa casa.

Depois de ir à missa no topo da colina, em Finglas, ao norte de Dublin, meu pai esperava fora da pequena capela da Igreja da Irlanda, na base da montanha, onde minha mãe tinha levado seus dois filhos.

Eu me mantinha acordado pensando na filha do pastor e deixava meus olhos mergulharem no cinema dos vitrais. Esses artistas cristãos inventaram o cinema. Luz projetada por meio da cor para contar sua história. Nos anos setenta a história eram os “Troubles” e vieram através dos vitrais, com pedras jogadas mais de malandragem do que de raiva. Mas a mensagem era a mesma: o país estava dividido em linhas sectárias. Eu tinha os pés em ambos os campos, então meu Golias se tornou a própria religião: eu comecei a ver a religião como a perversão da fé. Eu comecei a ver Deus em todo e qualquer lugar. Em garotas, diversão, música, justiça e silêncio… apesar da grandiosa tradução do Rei James — as Escrituras.

Eu amava essas histórias pelas razões mais fúteis, como filmes de ações, com alguns homens e mulheres durões, as perseguições de carro, as casualidades, o sangue e a coragem. Havia pouco beijo.

Davi era uma estrela, o Elvis da Bíblia, se nós pudermos acreditar na escultura de Michelangelo. E extraordinariamente para alguém tão “rock star”, com sua sede de poder, sede de mulheres, sede de vida, ele tinha a humildade de alguém que conhecia seu dom trabalhado mais intensamente do que nunca. Ele até mesmo dançou nu na frente das suas tropas — o equivalente bíblico de seguidores reais. Definitivamente, Davi era mais artista do que político.

De qualquer forma, eu parei de ir às igrejas e entrei em um tipo diferente de religião. Não dê risadas. Estar em uma banda de rock’n roll é isso. “Showbiz” é xamanismo, música é adoração. Se for adoração de mulheres ou a forma delas, o mundo ou sua destruição, se vem daquele velho local que nós chamamos de alma ou simplesmente coluna vertebral, se os adoradores estão apaixonados com uma intensidade muda ou desejam como pomba, a fumaça sobe, para Deus ou algo que você use para substituir Deus — normalmente si próprio.

Anos atrás, insensível às palavras e faltando 40 minutos para terminar nosso tempo de estúdio, nós ainda estávamos procurando uma música para fechar nosso terceiro álbum, War. Nós queríamos colocar algo explicitamente espiritual no álbum para equilibrar os temas políticos e românticos… como Bob Marley ou Marvin Gaye fariam. Nós consideramos sobre os Salmos – Salmo 40. Havia alguma inquietação. Nós éramos um grupo de rock branco e tal saque das Escrituras era um tabu para um grupo de rock branco a menos que isso estivesse a serviço de Satã. O Salmo 40 é interessante por que ele propõe um momento em que a graça substitui o karma e o amor substitui as leis muito severas de Moisés (em outras palavras, cumpre). Eu amo aquela idéia. Davi, que cometeu um dos atos mais egoistas e irresponsáveis estava contando com isso. As Escrituras serem cheias até a borda de pessoas inescrupulosas, assassinos, covardes, adúlteros e mercenários costumava me chocar. Agora isso é uma fonte de grande conforto.

40 se tornou a música que fechava os shows do U2, em centenas de ocasiões, literalmente milhares de pessoas de todas as idades e vários tipos de camisetas cantavam alto o refrão roubado do Salmo 6: “Quanto tempo (cantarei essa canção)?” Eu tinha pensado sobre isso como uma questão importunante, tocando na orla de uma divindade invisível cuja presença nós vislumbramos somente quando agimos em amor. Quanto tempo famintos? Quanto tempo odiados? Quanto tempo até que a criação cresça e o caos disso se antecipe, a pequena inclinação ao inferno tem sido descartada? Eu considerei quão estranho é que falar sobre tais questões traz algum conforto — inclusive para mim.

Retornando a Davi, não é tão claro quantos desses Salmos foram realmente escritos por ele e seu filho Salomão. Alguns acadêmicos sugerem que a realeza nunca umedeceu a caneta e que havia escritores espirituais. Quem se importa? Eu não comprei Leiber e Stoller — eles eram apenas compositores. Eu comprei Elvis”.

Bono Vox (introdução ao livro de Salmos do livro Revelations: Personal Responses To The Books Of The Bible)

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