Você tem fome de que?

25 junho, 2008

Bebida é água. Comida é pasto.
Você tem sede de que? Você tem fome de que?
A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte.
A gente não quer só comida, a gente quer saída para qualquer parte.
A gente não quer só comida, a gente quer bebida, diversão, balé.
A gente não quer só comida, a gente quer a vida como a vida quer.

Fui criança na década de 80 e no início dos anos 90. Cresci ouvindo todas aquelas canções que hoje são cantadas em festinhas com temáticas dos anos 80. De Balão Mágico a Léo Jaime. De Ritchie a Xuxa. Cresci numa época em que musica era diversão. Já não se fazia canções políticas e cm letras contundentes como as de Chico e Caetano na década de 60 e 70, por isso muitos consideram a década de 80 a mais improdutiva e menos criativa de todas. Mas nessa época também começou a grande virada do rock nacional com bandas como o Barão Vermelho, o Legião Urbana, e os Titãs. Era bem criança, mas me lembro do Arnaldo Antunes, ainda nos Titãs cantando a música Comida, no programa Globo de Ouro, na Rede Globo. Cabelos pretos espetados, um olhar mórbido, uma voz grave. Esse era o máximo de contato que poderia ter com o rock, através da televisão. Apesar da minha mãe ser uma cristã fervorosa e apreciadora de musica, o máximo de rock que tinha lá em casa eram as fitas de rock do Queen do meu pai. Mas me lembro bem de cantarolar Comida quando criança: “Você tem sede de que? Você tem fome de que?”

Foi só depois de algum tempo, anos depois, que entendi o que significavam essas perguntas. Existe uma fome em nós que a necessidade de expressar-se e de consumir a expressão do outro. Porque sem arte a vida não tem sentido. Sem música, sem beleza, sem novela, sem teatro, sem circo, sem poesia, sem flor desabrochando, sem pôr do sol.. Que vazio seria!

Durante muito tempo como cristã, condenei qualquer forma de arte que não tivesse como destino final, o Criador e seus atributos. Mas quando escutei acordes de um conterrâneo, Djavan, que chegavam aos meus ouvidos com uma doçura sem fim, me veio a iluminação: Nenhum talento vem de nenhuma outra fonte senão a do próprio Deus. Descobri que Deus é artista, é compositor, o designer mais rebuscado, o cineasta de histórias maravilhosas, a divindade que ama a poesia e e encheu seu livro com um bocado delas. Deus é arte e por isso a gente se emociona ao ver um filme bonito, chora ouvindo uma musica, se espanta com o absurdo da beleza da Praia do Gunga. Basta abrir os olhos e se deparar com sua exposição permanente.

O Evangelho consiste em deixar pra trás um montante de coisas. Vamos ter que sacrificar por amor a Ele um bocado delas, mas se tem uma coisa que ele nunca vai pedir para que deixemos pra trás, será a beleza da arte . Da arte do outro e da arte em nós, da nossa própria expressão, do nosso olhar diante do mundo. Que nos levem tudo, mas que não nos roubem a capacidade de nos expressarmos e de suspirar ou até mesmo de contestar a arte e seus caminhos. Isto está no nosso DNA e não tem como fugir. Continuamos famintos de comida (para o corpo e para o espírito) de diversa e arte.

C.

Nota: Excelente texto e reflexão da Cibele, via A princesa e o Guerreiro

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